Home       Quarta-Feira, 12 de Dezembro de 2018

As fintechs estão tirando a indústria financeira da zona de conforto (e isso é ótimo)

O tsunami das fintechs é uma amostra de que a Transformação Digital chegou para chacoalhar as estruturas de todos os mercados, inclusive aqueles conhecidos pela solidez.

Hoje, essas startups de serviços financeiros já são 377 no Brasil, com foco sobretudo em pagamentos e remessas (25%), gestão financeira empresarial (17%) e pagamentos (15%). E há espaço para crescer: os bancos digitais, por exemplo, estão expandindo, em média, 147% ao ano.

A demanda por modernização é clara. Por outro lado, nada pode comprometer a segurança dos serviços oferecidos pelos bancos e o elo de confiança com o cliente. Um nó da questão, portanto, é como construir um sistema mais aberto sem abrir mão da segurança.

“Como consumidores, buscamos serviços simples, como por exemplo um só aplicativo que consolide todas as nossas informações financeiras”, diz Gustavo Machado, superintendente de inovação do Banco ABC Brasil, empresa associada do iDEXO. “É ótimo mesmo, desde que esses dados estejam seguros e que não haja risco de você sair lesado.”

Machado, 43 anos, foge do perfil tradicional de “homem de banco”. No início dos anos 1990, cursava informática na Universidade Federal do Rio de Janeiro quando foi seduzido pelo mundo financeiro. Trocou de curso e foi estudar administração na mesma UFRJ, mas nunca se desligou de sua paixão pela tecnologia:

“Quando consegui o meu primeiro emprego em um banco, o meu diferencial era saber escrever códigos, analisar banco de dados e extrair dali informações relevantes. Era isso que o banco queria de mim, e em troca, eles me ensinaram finanças.”

Sua carreira evoluiu pelas áreas de business intelligence, planejamento comercial e com a atuação em projetos de fusões, aquisições e estruturação de negócios; trabalhou na compra do Boa Vista pelo Bradesco, na do Banespa pelo Santander e na do ABN também pelo Santander. Foi também diretor de duas plataformas digitais do Grupo Santander: WebMotors (veículos) e WebCasas (imóveis). Vem se dedicando nos últimos três anos à Transformação Digital, conquista de clientes e venda de produtos financeiros pela web.

No ABC Brasil desde janeiro de 2018, Machado desenvolve o banco digital da marca, incumbido de entregar inovação. Ele vê a chegada das fintechs com ótimos olhos:

“As fintechs não são uma ameaça. São um remédio. Os empreendedores ajudaram a desestabilizar o status quo das grandes companhias. E isso é muito saudável. É uma oportunidade de se reinventar, aprender coisas novas, sair da zona de conforto. As fintechs fizeram os reguladores perceber que precisam atualizar a base legal e ainda conseguem testar questões que a indústria financeira tem dificuldade para abordar.”

A melhor forma de lidar com a ascensão das fintechs é trazê-las para perto. O ABC Brasil mantém conversas frequentes com empreendedores graças à relação com o iDEXO – e já fechou parcerias com startups que são suas fornecedoras de soluções digitais.

“É um benefício mútuo. Nós aprendemos mais sobre abordagem rápida, ousadia, novas formas de usar a tecnologia, pensamento fora da caixa. Já eles conseguem dicas sobre como lidar com um mercado naturalmente complexo e muito regulado”, diz Machado.

Bancos têm um histórico de early-adopters. Um relatório da consultoria Dados e Ideias indicava que, das dez principais empresas que usavam microcomputadores em 1988, metade eram bancos. Nas últimas décadas, o setor lançou serviços inovadores, como o sistema de compensação de cheques e o TED, transferência bancária instantânea.

“Inovação está associada à necessidade: se o mercado não entregasse respostas rápidas a pagamentos, ele não seria viável num país com os problemas inflacionários que tínhamos nos anos 1980 e início da década de 1990. Hoje, somos referência para o mundo todo.”

Se o setor foi pioneiro na adoção de tecnologias, por que ainda carrega uma imagem tão conservadora? Muito se deve ao tempo de resposta.

“Em uma companhia com uma estrutura tão grande, não mudamos as coisas do dia para a noite”, diz Machado. “A solução é acrescentar camadas, soluções e módulos para ir testando as novidades.”

É como na metáfora do iceberg: se você está pilotando uma lancha, com uma viradinha consegue desviar do obstáculo. À frente de um transatlântico, porém, a guinada é bem mais complexa. Essa “lentidão” faz parte do preço a se pagar para proteger os clientes:

“Ao criticar a burocracia, muita gente esquece que quando o mundo capotou em 2008, o sistema financeiro brasileiro estava seguro”, lembra Machado. “Os bancos são super regulados e tomam todos os cuidados para proteger as suas operações e seus clientes.”

Outro ponto é o convencimento interno. Diretores de banco estão sempre interessados em ouvir novas ideias. Implementá-las é um passo além, mais complicado.

“O setor bancário tem desafios, mas no geral vai bem. E é difícil convencer alguém de que mudanças são necessárias se tudo está ‘no trilhos’. Como mostrar que é preciso sair da rotina?”

E o fato é que inovações, uma vez estabelecidas, podem rapidamente virar “rotina”. Hoje, bancos digitais e omnichannel não são mais tendências, e sim realidade. “Muito em breve, perguntar a uma empresa se ela possui serviços digitais será o mesmo que perguntar se ela tem um telefone, seja nesse ou em qualquer setor”, diz Machado.

O uso do big data “definitivamente pode mudar a forma como bancos tomam decisões de crédito com novas variáveis”, mas Machado salienta que é preciso trabalho para analisar informações que hoje estão desestruturadas. Base do Bitcoin, o Blockchain é outra inovação promissora. “Não com foco nas criptomoedas, mas sim na criptografia, que pode ser usada na validação de clientes, na gestão da identidade digital…”

No radar estão ainda sistemas de inteligência artificial, robôs e modelos preditivos mais avançados que os atuais. As possibilidades são enormes, sobretudo para as empresas dedicadas a pessoas jurídicas, como o ABC Brasil. Isso porque o primeiro ciclo de transformações já está acontecendo nos serviços voltados ao consumidor final.

“Esse primeiro ciclo gerou conhecimento que pode ser usado pelas empresas agora com foco no PJ”, diz Machado. “O ciclo voltado para o corporativo está em fase inicial, mas muita coisa já está acontecendo nos bastidores das companhias, principalmente em termos de business intelligence e decisão de crédito.”

A “dica de ouro” é entender que, para inovar, o importante é pensar nas pessoas:

“É um equívoco achar que a Transformação Digital é sobre tecnologia. O foco sempre será resolver problemas dos clientes. A tecnologia não é um fim, é um meio. O grande desafio está ligado às pessoas. O resto é ‘cenário’.”

Fonte: Raquel Beer, do Projeto Draft