Home       Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2018

Cartões sem anuidade ganham mercado

Popularizados principalmente pela fintech Nubank, os cartões de crédito sem anuidade são hoje o produto financeiro mais procurado pelos brasileiros. Segundo o buscador de produtos bancários Triunfei, que contabiliza 10 mil visitas por dia, nas três primeiras semanas de outubro 85% dos usuários buscaram os cartões isentos de tarifas.

A maior demanda é vista desde o começo do ano, ao mesmo tempo em que cresce a oferta de produtos semelhantes.

Segundo Pedro Vizeu, fundador e presidente do Triunfei, em outubro do ano passado, uma pesquisa mostrou que, de uma escala de 0 a 100, o interesse dos usuários por cartões sem anuidade era de 64. No mesmo mês deste ano, esse número subiu para 91.

“É uma grande tendência, que começou com Nubank, Banco Original. E os grandes bancos também perceberam isso e passaram a oferecer esses cartões”, afirma. Ele conta que no ano passado o número de programas de plásticos com isenção ou descontos na anuidade filtrados pelo Triunfei não chegava a uma dezena. Hoje, são mais de 40. “A gente acompanha o mercado bem de perto, temos 390 cartões filtrados na nossa plataforma. Então, acreditamos que nosso resultado seja um reflexo do setor”, afirma.

De fato, desde o ano passado os grandes bancos começaram a se movimentar de maneira mais intensa para oferecer produtos semelhantes. Para Lauro Gonzalez, coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da Fundação Getulio Vargas, a movimentação é fruto do acompanhamento minucioso que as instituições financeiras fazem de produtos considerados disruptivos, que vêm sendo lançados no mercado.

“Os bancos acompanham de perto as fintechs em estruturas como o Cubo e o InovaBra [centros de empreendedorismo ligados ao Itaú e Bradesco, respectivamente]. Essa é uma maneira de terem acesso a discussões de inovação e não ficarem para trás”, diz.

Ao detectar um produto ou serviço inovador que pode despertar a atenção do público, os bancos desenham uma forma de oferecê-lo aos clientes com algum diferencial. No caso dos cartões sem anuidade, as vantagens oferecidas pela maioria das instituições são descontos e benefícios em lojas e empresas parceiras. Por outro lado, a isenção da anuidade não é garantida em todos eles. Alguns exigem a movimentação de um valor mínimo no plástico para dispensar o cliente do pagamento da tarifa. Assim, o usuário é estimulado a usar o cartão, o que assegura ao banco receitas vindas da taxa de intercâmbio — parte do percentual cobrado dos lojistas a cada transação feita com o cartão de crédito.

O investimento mais recente nesse tipo de serviço foi feito pelo Banco do Brasil (BB), que lançou em junho o Ourocard Fácil. O cartão pode ser solicitado pelos correntistas e também por quem não tem conta na instituição, justamente para atender essa “demanda crescente pelo produto sem tarifas”, afirma Rogério Panca, diretor de meios de pagamentos do Banco do Brasil.

“Já tínhamos produtos sem anuidade para fins exclusivos, como aqueles cartões em parcerias com lojas, como o da BR Distribuidora e da Saraiva. A demanda era crescente, então criamos um para quem já era cliente e para quem não era. E percebemos uma aceitação e procura muito forte por ele”, afirma.

No caso do Ourocard Fácil, o cliente precisa gastar, pelo menos, R$ 100 por mês. Do contrário, é cobrada uma anuidade de R$ 60, divididos em 12 parcelas de R$ 5. A vantagem, segundo Panca, são os benefícios exclusivos que ele oferece.

“Com ele, o cliente tem descontos em shows, cinemas e atrações de parceiros, além de ofertas na entrada no Centro Cultural Banco do Brasil e nos circuitos de corrida do banco”, afirma o executivo.

O modelo é parecido com o oferecido pelo Santander no seu Cartão Free, em que o usuário também precisa gastar pelo menos R$ 100 mensais. Caso isso não aconteça, a anuidade é mais salgada do que a cobrada pelo BB: 12 parcelas de R$ 29,90. O banco ainda oferece a opção Santander Play, só para universitários. Nele, o gasto mínimo é de R$ 50, caso contrário a anuidade é de 12 parcelas de R$ 20,50. Apesar de ter sofrido modificações ao longo do tempo, o modelo do Santander funciona há 12 anos, segundo Rodrigo Cury, diretor de cartões do banco.

Como a estratégia foi bem-sucedida, o banco expandiu o modelo para “quase todo o portfólio de cartões”. A diferença, nesse caso, é o mínimo de gasto exigido.

“Nós não temos um cartão totalmente livre. Mas o cliente que está a fim de ter um cartão pode conquistar desconto ou isenção”, diz o executivo. A ideia, nesse caso, é fidelizar clientes de diferentes perfis e faixas de renda.

A isenção completa da tarifa sem exigência mínima de gastos é vista somente no modelo do Itaú, que no fim de 2017 lançou o Credicard Zero. Segundo Fabiano Dourado, diretor de cartões do Itaú Unibanco, a iniciativa veio da percepção de que “há um mercado em que o cliente não está mais disposto a pagar anuidade”. Segundo o executivo, a diferença da proposta do Credicard Zero é que se trata de um “cartão sem anuidade, mas com benefícios”, como descontos em parceiros e cupons a cada compra feita.

“Dentro do próprio aplicativo o cliente acessa a loja de benefícios e vê o conjunto de parceiros. Criamos ainda uma mecânica que gera um cupom eletrônico de descontos. Se o cliente gastar R$ 100 em um varejista, tem cupom de R$ 10. Se gastar de R$ 100 a R$ 200, ganha R$ 20”, diz. Dentre os parceiros estão Magazine Luiza, Natura, Rappi, Uber e Fastshop.

Nenhum dos três bancos informou o número de plásticos isentos de tarifas no mercado. Segundo o Itaú, o Credicard Zero tem uma demanda crescente. “O número de pedidos hoje é dez vezes maior do que quando o lançamos no final do ano passado”, afirma Dourado. No Santander, Cury afirma que existem “cerca de 16 milhões de cartões do banco em circulação, dos quais grande parte é Free”. Já o Banco do Brasil disse que o número de cartões é uma “informação estratégica”.

Fonte: Nathália Larghi, do Valor