Home       Quarta-Feira, 12 de Dezembro de 2018

O que avaliar antes de investir em um fundo de crédito - Por Acrisio Dias

O atual cenário de juros baixos e incertezas político-econômicas tem levado os investidores a buscar alternativas com menor volatilidade e que possam resultar em melhores retornos para seus recursos.

Os fundos de crédito têm despertado cada vez mais o interesse dos investidores. Entretanto, é muito importante que eles sejam cautelosos na avaliação da carteira e na escolha do investimento.

Em primeiro lugar é importante entender que as carteiras desses fundos são compostas por ativos de renda fixa de diferentes categorias, como debêntures, notas promissórias, letras financeiras e recebíveis imobiliários e agrícolas (CRI e CRA). Em um momento como o atual, no qual as empresas estão tendo dificuldades para buscar recursos junto a bancos comerciais ou de fomento, como o BNDES e outras fontes subsidiadas, a emissão de títulos no mercado de capitais acaba se tornando uma alternativa viável para que elas busquem dinheiro para dar prosseguimento a seus negócios, seja para ampliação de capital de giro, pagamento de dívidas ou em investimento em suas atividades.

Em 2018, o volume de emissões de renda fixa distribuídas no mercado local bateu recordes, chegando a mais de R$ 127 bilhões, o que representa crescimento de 76% na comparação com o ano anterior.

Na prática, ao investir em cotas de um fundo de crédito, o investidor está financiando determinado número de empresas, de determinados setores, sendo que o rendimento do fundo estará atrelado à quitação dos títulos por parte dos emissores. O principal risco que o investidor corre, portanto, é de que uma ou mais empresas emissoras dos recebíveis que compõem a carteira do fundo não honre o resgate dos títulos.

Na análise dos fundos de créditos, alguns fatores chaves precisam ser considerados: 1) diversificação da carteira; 2) qualidade do crédito das contrapartes; 3) "duration" dos ativos; e 4) liquidez do fundo.

A diversificação da carteira de ativos, primeiro ponto a ser avaliado, mitiga o risco de perda quando da ocorrência de default de um ativo, ou seja, da falta de pagamento de juros ou principal. Por isso é importante evitar fundos cuja carteira esteja concentrada em poucas empresas ou setores.

A grosso modo, quanto maior o número de empresas e setores que compõem o fundo, mais diluído será o risco. Há alguns fundos de recebíveis globais disponíveis no mercado brasileiro que permitem ainda a diversificação por países/regiões, diluindo ainda mais os riscos para os investidores.

O segundo ponto que merece atenção é a qualidade do crédito das contrapartes do fundo, ou seja, das empresas devedoras do fundo, o que pode ser avaliado considerando pontos como a alavancagem das companhias (nível de endividamento), estabilidade do fluxo de caixa, covenants (garantias) adequados, entre outros fatores.

A atribuição de nota de risco das empresas e operações por agências de risco, apesar de não ser obrigatória, adiciona uma avaliação independente ao título. Os gestores, entretanto, devem ter condições de definir internamente o risco dos ativos.

O duration, terceiro ponto que merece atenção, de forma simplificada é a medida do impacto no preço dos ativos para uma variação da taxa de juros, sendo que quanto maior duration, maior o impacto. Assim, fundos com ativos de maior duration na carteira são mais sensíveis a variações da taxa de juros.

Por fim, é importante verificar se a liquidez do fundo é adequada tanto à expectativa do investidor quanto à carteira de ativos do fundo pois, em caso de um grande volume de resgates, os cotistas remanescentes podem ser prejudicados por eventuais perdas devido a deságios na venda de ativo, uma vez que os ativos passarão a ter baixa liquidez no mercado secundário. É importante ressaltar que o mercado secundário local de crédito ainda é pequeno quando comparado ao mercado internacional. Em 2018, por exemplo, o volume negociado mensalmente no mercado secundário de debêntures equivale a menos de 2% do estoque total de ativos.

Assim, antes de escolher um fundo de crédito, o investidor deve estar atento à qualidade da análise realizada pelo gestor para alocação de ativos. É importante entender o fluxo de alocação e a governança na gestão do fundo. A criação de comitês de crédito para aprovação das operações e a definição dos limites de exposição são boas práticas da indústria. Além disso, processos de "due diligence" e prevenção a lavagem de dinheiro (PLD) também devem ser adotados com o objetivo de evitar operações fraudulentas. Governança é fundamental em fundos de crédito. O alinhamento de interesses é feito por taxas de performance e gestão adequadas.

Acrisio Dias é analista da Claritas Investimentos.

Fonte: Valor