Home       Quarta-Feira, 12 de Dezembro de 2018

XP desliga autônomo que negociava com BTG

Há pouco mais de uma semana, a One Investimentos, de Belo Horizonte, foi surpreendida por um distrato da XP Investimentos, que interrompeu assim um acordo de exclusividade fechado em abril de 2016 com o escritório de agentes autônomos.

Só que o desligamento veio com uma espécie de carimbo de "justa causa", o que fez com que da noite para o dia os assessores da One deixassem de ter acesso aos sistemas de transações ou de informações dos investidores que atendiam.

O movimento coincidiu com uma recente aproximação com o BTG Pactual Digital, e uma proposta de distribuição estava em vias de ser fechada. Nos bastidores, a XP vem alegando que o rompimento do contrato com um dos seus principais escritórios de agentes autônomos, com mais de R$ 1 bilhão, decorreu de infrações a regras da instrução nº 497, que disciplina a atividade desses profissionais.

A XP não comenta, mas o Valor apurou que um representante da XP teve na quarta-feira antes do feriado reunião com técnicos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para relatar falhas que teria identificado, em auditoria regular, na atuação da One, além de levantar suspeitas de que informações sensíveis possam ter sido compartilhadas com o BTG.

Tal hipótese foi alvo das justificativas listadas pela XP para a rescisão imediata do contrato, segundo um interlocutor que teve acesso ao documento. A XP descreve que o escritório tomou conhecimento de questões estratégicas, como formas de comissionamento, bem como do perfil, patrimônio e histórico dos investidores e que tais informações não poderiam ser divulgadas a terceiros ou usadas em benefício próprio. A instituição cita que uma eventual quebra de sigilo poderia constituir crime.

Se, de fato, uma corretora identifica irregularidades na conduta dos agentes autônomos, que atuam como seus prepostos, é obrigação dela fazer a comunicação ao regulador ou à autorregulação, mas nem sempre isso acaba em distrato. O rompimento teria sido precipitado pela intenção da One de se plugar ao BTG.

Segundo Rafael Mourão, um dos principais sócios da empresa mineira, a XP derrubou o acesso da One à plataforma, impossibilitando que fizesse, por exemplo, resgate em fundo solicitado por cliente, e sem especificar a razão da justa causa. "A XP não respeitou o período de 60 dias de carência, comum entre as partes, o que permitiria faturar dois meses e ter acesso aos clientes", diz.

Ele assegura que as conversas com o BTG Pactual transcorreram nas duas últimas semanas e que não houve intersecção de relacionamento com as duas plataformas ou a partilha de informações relativas a clientes com o banco. O plano era alinhavar os termos do acordo com o BTG para então avisar à XP do movimento. Numa rescisão normal, com continuidade da prestação de serviços por 60 dias, não haveria interrupção no fluxo de receitas, de cerca de R$ 1 milhão.

"A conversa com o BTG ocorreu há muito pouco tempo, a gente preza muito em manter o contrato com o nosso parceiro, não houve má fé. Íamos contatar a XP, mas saiu da maneira que a gente não queria", diz Mourão. Para o sócio da One, o processo foi de certa forma "intimidador", para que servisse de lição para que outros escritórios de agentes autônomos que vêm sendo assediados pela concorrência não tomem caminho semelhante.

Como os agentes autônomos são prepostos, os investidores que trazem não pertecem a eles, mas às corretoras que representam. Imediatamente após romper o contrato com a One, a XP redistribuiu a base para outros agentes locais ou para o private banking da XP, dependendo do volume em custódia.

A expectativa de Mourão é manter a sua base de relacionamento, apesar das dificuldades impostas pelo rompimento do contrato com a XP fora do prazo que imaginava.

No site da One, o selo da prestação de serviço com a XP que aparecia na semana passada já tinha sido substituído pela marca do BTG Pactual na sexta-feira.

Segundo Marcelo Flora, sócio do BTG responsável pela operação digital, as conversas com a One eram para que distribuísse fundos de investimentos e títulos de renda fixa fora do escopo de exclusividade regulatória que a CVM impõe para ações e debêntures. Ao tomar conhecimento do fim do contrato com a XP, a instituição acertou a parceria para todas as classes de ativos.

O executivo diz ter construído uma relação de confiança com a One ao longo do tempo pela qualidade dos seus assessores e que recebeu representantes do escritório no banco. Ele assegura que em nenhuma ocasião houve compartilhamento de nome de clientes, CPF, tamanho de posição ou qualquer outro tipo de informação estratégica.

"Não tivemos acesso a absolutamente nada, a não ser agora com a STVM [solicitação de transferência de valores mobiliários]", diz Flora, referindo-se ao documento que formaliza a portabilidade de investimentos pedida pelos clientes, que resolveram migrar para o BTG. "Não fizemos o digital com foco em dividir com o que as corretoras têm. Meu negócio é que 95% [dos investimentos] estão nos bancos. Vamos ser mais uma opção num mercado concentrado."

O BTG ainda dá os primeiros passos no canal de agentes autônomos. Resolveu explorar essa via quando a XP abortou, em maio de 2017, seu plano de ir à bolsa - o BTG estava entre os coordenadores da oferta -, após a XP tratar com o Itaú a venda de fatia do negócio.

Fonte: Adriana Cotias, do Valor