Home       Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2018

XP quer replicar estratégia de varejo no atacado

Depois de consolidar sua posição no varejo como pioneira do mercado na distribuição de produtos na plataforma aberta, a XP Investimentos pretende ampliar sua atuação no mercado de capitais.

Criada há cerca de dois anos, a área de banco de investimento tem ganhado peso nos planos e orçamento da companhia, juntamente com a criação de uma bolsa para negociação de criptomoedas e a licença para atuar como banco com foco no varejo. "Para chegarmos a R$ 1 trilhão em ativos sob custódia, precisamos criar novos produtos", conta Daniel Lemos, sócio e chefe de produtos do grupo XP, responsável pela área de banco de investimento.

A empresa tem usado a experiência na distribuição e a base de investidores pessoa física para abordar empresas com potencial para acessar o mercado de capitais. "Como distribuidor, entendemos o que vai ter demanda, por que produto o investidor de varejo vai ou não se interessar, o que poderia ser modificado", diz Lemos. "Antes o produto chegava pronto das empresas e dos bancos, então vimos espaço para essa assessoria na estruturação."

A XP já distribuía Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) da Cyrela, mas decidiu abordar a companhia para sugerir mudanças em suas captações por meio do instrumento. "Ao invés de emitir tudo de uma vez e ficar com dinheiro parado, a empresa podia fazer uma emissão continuada, casando melhor a captação com seu fluxo de caixa, que muda conforme o andamento de obras e distratos", diz Rafael Quintas, sócio e chefe de distribuição da XP.

A Cyrela fez, então, uma emissão continuada, coordenada pela XP, em que captou R$ 390 milhões ao longo de 58 dias úteis de distribuição, com títulos de prazo de até quatro anos. Já foram dez emissões continuadas para diferentes companhias.

A atuação na estruturação de ofertas começou justamente por títulos de renda fixa como CRIs e Certificados de Recebíveis Agronegócio (CRAs). "São papéis com forte demanda de investidores pessoa física e muito volume na plataforma", explica Quintas.

A base de investidores da XP, que reúne 730 mil pessoas físicas, 395 fundos de pensão e fundações, 180 gestores e 50 family offices, dá à XP uma vantagem na distribuição das ofertas de mercado de capitais que origina.

No ano, até setembro, a XP ocupava o oitavo lugar no ranking de originação de emissões de renda fixa e o primeiro nas ofertas de instrumentos de securitização, como CRI e CRA, e também de cotas de fundos de recebíveis (FIDC), segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Nos últimos dois anos, outras áreas do banco de investimento foram sendo estruturadas. Hoje são 60 pessoas na equipe. A área de mercado de capitais está dividida em sete departamentos: mercado de dívida, mercado de ações, securitização, finanças estruturadas, financiamento de projetos, multilaterais e fusões e aquisições (M&A).

O desafio agora é aumentar a participação na originação de ofertas de renda variável e também na assessoria de transações de M&A. A XP estava em 13º lugar no ranking de fusões e aquisições da Anbima, considerando as transações anunciadas, tendo participado como assessor de uma operação de R$ 120 milhões no ano, até junho. Na parte de oferta de ações, a XP não participou de nenhuma emissão neste ano até agora, mas entrou como um dos coordenadores da oferta pública inicial de ações (IPO) do Banco BMG. A oferta foi protocolada no fim de outubro na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A XP também está no grupo de coordenadores da oferta subsequente da companhia de energia Light, apurou o Valor.

"Para aumentarmos o volume de originação, precisamos aumentar também o número de empresas fazendo emissões. Pretendemos trazer dez vezes mais companhias para o mercado de capitais em dois a três anos", diz Lemos. Na avaliação do executivo, a concentração bancária acaba aumentando a oportunidade para o mercado de capitais, uma vez que é a alternativa para as empresas ficarem menos dependentes dos bancos.

A XP pretende usar a força dos 3,7 mil agentes autônomos espalhados por 660 escritórios pelo Brasil, não só para distribuir os produtos como também prospectar novos mandatos de operações. "Estamos fazendo um treinamento dos agentes para que tragam mandatos de M&A", exemplifica Marcello Aragão, sócio e chefe da área de mercado de capitais. "Além disso, isso gera uma liquidez e o empresário pode investir com o agente autônomo", completa.

A XP tem 20 mandatos de operações na área de fusões e aquisições - dois deles foram trazidos por agentes. O foco são transações de pequeno e médio porte, entre R$ 100 milhões e R$ 500 milhões.

A XP aguarda ainda uma licença do Banco Central para operação de banco, o que é estimado para acontecer ainda este ano. Com a licença, a empresa poderá ampliar os produtos oferecidos nessa área como, por exemplo, o seguro fiança para as empresas assessoradas. "Mas isso seria complementar. O foco do banco será atender o cliente da plataforma de varejo", diz Lemos.

A XP já tinha feito em 2011 uma tentativa de montar uma área de mercado de capitais, comandada por Paulo Gouvea, que até então era o diretor financeiro da holding EBX. Mas o projeto não chegou a ter uma equipe estruturada e um planejamento estratégico para usar os canais de relacionamento formados na distribuição de produtos, e acabou não decolando.

Fonte: Maria Luíza Filgueiras e Silvia Rosa, do Valor