Home       Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2018

Acesso a canais remotos de serviços financeiros cresce 20% ao ano, diz BC

O número de postos de atendimento para a prestação presencial de serviços financeiros em todo o país caiu de 2015 a 2017, após quatro anos de estagnação.

O acesso a canais remotos de atendimento, por outro lado, cresceu 20% ao ano no período, suprindo em parte essa retração. Ainda assim, a proporção de adultos com relacionamento bancário no país ficou estável, assim como a parcela de brasileiros que contraíram crédito.

Os dados estão no Relatório de Cidadania Financeira, que será divulgado nesta quarta-feira pelo Banco Central na abertura de seminário voltado para o tema. O documento levanta um panorama amplo de como os brasileiros estão acessando os recursos financeiros e do quão sustentável é esse uso.

No relatório, o Banco Central pondera que, no período recente, o desempenho do crédito sofreu o impacto da conjuntura macroeconômica desfavorável. A parcela de adultos que obteve crédito oscilou de 45% em 2016 para 44% no ano seguinte. Já o saldo de crédito mostrou variação de acordo com a faixa de renda. De 2015 a 2017, o saldo aumentou em todas as faixas, com exceção da mais alta (acima de 20 salário mínimos), que sofreu queda de 5,6%.

De acordo com o BC, em momentos de retração econômica, as classes de renda mais alta tendem a recorrer menos a financiamentos pois têm mais reservas financeiras e, diante das incertezas, optam por reduzir o crédito. Já as faixas de renda mais baixa são impelidas ao crédito por falta de alternativa para fazer frente a imprevistos.

Olhando à frente, a autoridade monetária destaca que o acesso aos serviços financeiros caminha para ser digital e que, nesse contexto, os pagamentos instantâneos, feitos em tempo real, a qualquer hora do dia, têm o potencial de se tornarem o "novo normal". O modelo para o pagamento instantâneo está em discussão com o mercado em grupo de trabalho coordenado pelo Banco Central. A ideia é estabelecer um ecossistema similar ao da Transferência Eletrônica Disponível (TED), mas com maior disponibilidade e velocidade.

Considerando as disparidades regionais, de renda e de inclusão digital, o Banco Central ressalta, no entanto, que os postos de atendimento físico e o próprio uso do dinheiro em espécie continuam tendo peso relevante.

"A transformação para o digital, portanto, precisa ser acompanhada para que se garanta que esse processo será, de fato, inclusivo", afirma o BC no relatório.

No curto prazo, outro desafio é estimular que o uso de instrumentos eletrônicos de mais baixo custo, como o cartão de débito, sejam mais usados do que o cartão de crédito, que pode levar ao endividamento excessivo. Para tanto, têm sido adotadas medidas como a redução da tarifa de intercâmbio do cartão de débito.

O BC também chama a atenção para a dificuldade de aumentar o crédito consignado entre trabalhadores celetistas. Dados de 2017 mostram que apenas 6,7% dos trabalhadores com carteira assinada têm acesso a essa modalidade, frente a 54,5% dos servidores públicos e 32,6% dos aposentados do INSS. O baixo acesso para os não-servidores foi pouco afetado por iniciativa do governo de liberar, em 2016, o uso do FGTS como garantia desses empréstimos.

"Uma hipótese é que o custo de operacionalizar esse crédito não seja baixo e acabe não compensando às instituições financeiras, já que é necessário que façam acordos individuais com cada empresa", afirmou o BC.

Outro desafio é incentivar a poupança de recursos. Dados do Banco Mundial citados no relatório mostram que a parcela dos brasileiros que diz ter poupado algum dinheiro no último ano aumentou em 4 pontos de 2014 a 2017, para 32%. Ainda assim, o patamar é inferior à média de países com renda per capita similar (43%). Essa disparidade indicaria que o nível de renda não é determinante para a decisão de poupar.

Para o BC, a questão demanda investigação e pode estar relacionada a fatores culturais, educacionais e de comunicação. Outro aspecto que merece ser considerado, segundo a autarquia, é o possível impacto da relativa segurança assistencial, trabalhista e previdenciária no país.

Para mensurar a evolução da inclusão financeira e da educação dos brasileiros na área, permitindo comparações temporais e regionais, o BC criou o Índice de Cidadania Financeira. O indicador compila informações sobre o número de postos de atendimento, acesso à internet, taxa média de juros dos empréstimos, inadimplência e endividamento, entre outros dados.

O novo indicador mostra que as regiões Norte e Nordeste estão abaixo da média nacional nos quesitos mensurados, enquanto as demais regiões estão acima. O Estado pior colocado foi o Pará, com pontuação de 0,08, enquanto o Distrito Federal ficou em primeiro lugar, com 0,87.

Nacionalmente, os dados apontam que a dimensão de inclusão financeira do ICF tem resultados melhores do que a dimensão de educação financeira em todo o país. Para o BC, os resultados mostram a importância de ações que promovam o planejamento financeiro, a poupança e o uso responsável do crédito. Também reforçam a necessidade de aperfeiçoamento e adequação dos produtos financeiros ofertados.

Fonte: Isabel Versiani, do Valor